SILENCIAMENTO

Até um determinado ponto de poder, o controle das gangues comandava quase tudo, principalmente quando pensamos em situações que fazem parte das ruas e, de outro lado, as Petacorporações quando pensamos em “Super Giga Mega” quantidades de valores, algo muito além das “ruas”, poderes políticos e armamentistas continentais, aqueles que não chegam a ser responsabilidade dos cidadãos e cidadãs ainda que a mídia queira fazer parecer que são estas pessoas comuns as responsáveis pelos megaproblemas das Gigalópolis.

De fato, as pessoas comuns, o povo, só ficam sabendo qualquer coisa muito tempo depois. Este é exatamente o plano. O que nós jovens pensávamos ser uma conquista ou mesmo uma resistência sobre algum evento ou comportamento que assumíamos não passava de um plano estratégico muito bem pensado e desenvolvido.

Um exemplo para que você entenda as lógicas de governo é o fato de que depois do século 21 os jovens eram tidos como incompetentes e de baixíssima produtividade. Ao mesmo tempo em que essa cultura era fabricada, o desenvolvimento das Inteligências Artificiais ganhava cada vez mais terreno no campo profissional e social, junto disso, o uso de robôs que realizavam tarefas mais básicas aumentava exponencialmente.

Nos séculos seguintes, o subemprego se tornou regra, e os investimentos em trabalho humano nas indústrias começaram a encolher. Com o envelhecimento da população humana, agravado por guerras prolongadas e crises de saúde, muitos foram empurrados para as bordas da sociedade. Não foi uma escolha — foi uma consequência de sistemas que não se adaptaram com justiça às mudanças.

Outras espécies, com diferentes capacidades e ritmos de vida, começaram a ocupar espaços que antes eram predominantemente humanos. Isso não foi um problema em si. O problema foi a forma como a transição aconteceu: sem cuidado, sem equidade, sem escuta. A marginalização não escolheu espécie — mas os humanos, por estarem em maior número e em situação de fragilidade, sentiram o impacto com mais força.

O mais triste é que essa lógica de exclusão não era nova. No século 21, já se acreditava — absurdamente — que certas populações podiam ser exploradas com base em características étnicas ou sociais. Essa ignomínia, essa desonra histórica, não desapareceu. Ela apenas se adaptou, se infiltrou nas novas estruturas, e se manteve viva na malha social do nosso tempo.

Hoje, olhando para trás, é impossível não ver os paralelos. A tecnologia avançou, as espécies se multiplicaram, mas a tendência de excluir o que é diferente ou vulnerável continua sendo um dos maiores desafios da nossa civilização.

Com a chegada de outros seres — outras espécies, com tempos de vida diferentes e formas distintas de se relacionar com o mundo — esse movimento ganhou força. O mercado informal cresceu de maneira descontrolada, e os trabalhos microempreendedores passaram por transformações profundas. O que antes era uma alternativa de sobrevivência virou uma massa complexa de trabalhadores em condições instáveis, tentando se manter à margem das corporações.

Foi nesse cenário que as gangues começaram a se mover. Elas não queriam apenas dominar territórios; queriam regular esses grupos sociais, impor regras, cobrar taxas, oferecer proteção. Criaram sistemas próprios, paralelos aos das corporações, e começaram a disputar influência. As brigas deixaram de ser pontuais e viraram micro guerras — conflitos localizados, mas intensos, por domínio de espaços físicos e digitais.

Nada disso foi espontâneo. Tudo fazia parte de uma estratégia muito bem desenhada e aplicada pelas Petacorporações. Elas observavam, deixavam acontecer, e depois absorviam o que funcionava. Era uma forma de controle indireto, usando o caos como ferramenta. As gangues viraram peças no tabuleiro, e os trabalhadores informais, variáveis de um experimento social em escala urbana.

TRIX era a festa. Meu aniversário, minha celebração — uma bolha de cores, música, corpos vibrando. Mas naquele instante, algo atravessou essa bolha e a desfez.

Um clarão cortou o teto do evento como lâmina quente na carne.

Depois, o som desapareceu.

O ar estalou. O tempo desmanchou.

E veio a explosão.

Não foi só matéria sendo arremessada. Foram códigos, memórias, identidades sendo rasgadas. O chão abriu e tragou significados. Um protocolo de contenção ativado — mas não por nós. Por eles. Por quem nos observava. Por quem monitora corpos não autorizados a existir fora dos padrões.

Saímos do ar. Literalmente.

mannasec31@gmail.com

Naquela noite, quase cem pessoas foram apagadas. Não mortas. Só… suspensas. Consciências arquivadas, como documentos em investigação.

Eu acordei quase um ano depois. Dois olhos no espelho, mas não eram os meus. O corpo parecia meu, mas havia falhas. Lapsos. Gaps.

Maria voltou dias depois, mas algo nela também tinha sido reprogramado. Ela chorava sem saber por quê. Cada lágrima parecia vinda de uma lembrança que ela nunca teve.

Nas semanas seguintes, arquivos vazados sugeriram que TRIX havia sido usada como campo de teste. Um experimento social sobre dissidência.

Grupos queer, identidades trans, ativistas não-binários — todos alvos. Mapas de presença foram traçados, correlacionando corpos considerados “fora do design normativo” com picos de instabilidade energética.

Foi ali que entendi: não erraram o alvo. Escolheram. E escolher, naquele sistema, era uma forma limpa de crueldade.

Houve mutilações no espectro da consciência.

Pessoas que acordaram com palavras arrancadas.

Outras com símbolos tatuados nos sonhos — uma espécie de marca não física, mas que gerava dor quando pensada.

Um garoto que antes se identificava como gênero-fluido acordou sem vocabulário para se expressar. Disseram que era trauma. Mas era punição.

Chamaram de colapso técnico. Eu chamo de massacre sutil.

Eu sou testemunha disso.

Fomos “salvas”, mas salvas de quê? Este pensamento começou a me ocorrer quando eu já estava acordada a algum tempo. O que havia acontecido? Dores muito fortes estavam em todo o meu corpo. Tudo era muito confuso, eu não tinha a menor ideia do que havia se passado nem do que estava por vir.

Só descobri seis meses depois de voltar à superfície. Meu corpo já estava “funcionando”, mas minha mente ainda engatava — como um velho rádio tentando captar uma frequência que não queria ser ouvida.

TRIX abrigava exatamente 378 pessoas naquela noite. Segundo os registros que escaparam da censura oficial, entre trabalhadores da casa e corpos vibrando na pista, o número era esse. Uma multidão com histórias, expressões, vísceras e sonhos. Subjetividades e objetividades divergentes, periféricos, artistas, migrantes — um mosaico de resistência que nunca se encaixou na norma.

A notícia antiga falava em explosão de gás. Uma falha técnica. Uma casualidade. Mas não havia sobreviventes registrados. Nenhum. Nem sequer uma testemunha ocular. O que quer que tenha acontecido foi varrido com precisão cirúrgica. E não foi o gás.

Foi um silenciamento orquestrado.

Nos jornais digitalizados — só disponíveis em arquivos paralelos, escondidos nas camadas mais profundas da malha de informação — a TRIX é tratada como um evento isolado. Nada conecta os desaparecimentos aos traços identitários das vítimas. Nada além do padrão. Mas quem sobrevive ao apagamento sabe reconhecer um padrão quando ele é programado.

Ali, corpos dissidentes foram marcados como instabilidade social. E o evento foi a “solução rápida”. A explosão, seja lá como foi produzida, eliminou variáveis humanas incômodas. Sem deixar rastros orgânicos. Sem sangue nas paredes. Só ausência. E onde há ausência, o sistema não responde.

Falar sobre isso ainda hoje é como invocar um erro no código. Maria, que também foi uma das que retornaram, descreve em seu diário: “TRIX não explodiu. Ela foi desativada. Como um botão de pânico invisível que só é apertado quando corpos errados ocupam espaço demais.”

Eles tentaram nos apagar — com gás, com silêncio, com fórmulas.

Mas estamos voltando.

Mesmo fragmentados.

Mesmo quebrados.

Ainda somos dados que o sistema não consegue deletar.